IPv6-Mostly: Será este o verdadeiro próximo passo da Internet?
IPv6-Mostly: Será este o verdadeiro próximo passo da Internet?
Durante muitos anos, a comunidade técnica discutiu o IPv6-Only como o destino natural da Internet. Afinal, o esgotamento dos endereços IPv4 e a crescente adoção do IPv6 apontavam para um cenário onde o IPv4 deixaria de existir.
Mas será que essa transição acontecerá de forma tão direta?
Observando a evolução dos sistemas operacionais, das operadoras, dos grandes provedores de conteúdo e da própria arquitetura das redes, comecei a refletir sobre uma possibilidade que, na minha opinião, parece cada vez mais provável:
Antes de uma Internet totalmente IPv6-Only, poderemos viver uma longa fase de IPv6-Mostly.
O modelo atual
Hoje, praticamente todos os ISPs operam em Dual Stack, entregando simultaneamente IPv4 e IPv6 aos seus clientes.
Essa arquitetura foi fundamental para permitir a evolução da Internet sem comprometer a compatibilidade dos serviços existentes.
Entretanto, ela também aumenta significativamente a complexidade operacional.
Na prática administramos:
- Duas pilhas completas de protocolos;
- Duas tabelas de roteamento;
- Duas políticas de segurança;
- Dois ambientes de troubleshooting;
- Dois planos de monitoramento;
- Dois protocolos convivendo permanentemente.
À medida que o IPv6 cresce e passa a representar uma parcela cada vez maior do tráfego da Internet, surge uma pergunta interessante:
Será que ainda faz sentido manter o Dual Stack para sempre?
O conceito de IPv6-Mostly
O conceito de IPv6-Mostly propõe uma mudança importante na arquitetura das redes.
Em vez de fornecer IPv4 e IPv6 durante toda a vida útil da infraestrutura, o IPv6 passa a ser o protocolo principal.
O IPv4 continua existindo, porém apenas como mecanismo de interoperabilidade para aplicações e serviços legados.
Talvez a maior mudança esteja no NAT
Na minha opinião, esse é um dos pontos mais interessantes dessa evolução.
Durante décadas utilizamos o NAT para resolver um problema muito específico:
Traduzir endereços IPv4 privados para IPv4 públicos.
Exemplos conhecidos:
- NAT44
- PAT
- CGNAT
Sempre trabalhando da seguinte forma:
IPv4 Privado → IPv4 Público
Em uma arquitetura IPv6-Mostly esse conceito muda completamente.
O NAT deixa de ser apenas um mecanismo para economizar endereços IPv4 públicos e passa a atuar como uma camada de interoperabilidade entre protocolos.
Agora ele passa a permitir cenários como:
- Cliente IPv6 acessando servidores disponíveis apenas em IPv4;
- Aplicações IPv4 funcionando sobre redes predominantemente IPv6;
- Tradução transparente entre IPv6 e IPv4.
Ou seja, o NAT deixa de traduzir apenas endereços IPv4 e passa a traduzir protocolos.
Essa mudança é possível graças a um conjunto de tecnologias que já estão presentes em diversos ambientes de produção.
As tecnologias que tornam isso possível
- NAT64 – Permite que clientes IPv6 acessem serviços disponíveis apenas em IPv4.
- DNS64 – Sintetiza registros AAAA quando um domínio possui apenas registros A.
- CLAT – Executa a tradução no dispositivo do usuário, permitindo que aplicações IPv4 continuem funcionando normalmente.
- 464XLAT – Combina CLAT no cliente com NAT64 na operadora, sendo atualmente uma das arquiteturas mais utilizadas por operadoras móveis.
- SIIT-DC – Utilizado em cenários específicos de Data Centers para tradução entre IPv6 e IPv4.
E os grandes provedores de conteúdo?
Hoje, Google, Meta, Netflix, Cloudflare, Amazon e diversos outros provedores continuam oferecendo seus serviços em Dual Stack.
Até o momento, não existem anúncios públicos indicando uma migração ampla para operação exclusivamente em IPv6 em seus CDNs ou plataformas de entrega de conteúdo.
Entretanto, observa-se um crescimento contínuo da utilização do IPv6 e uma forte evolução do ecossistema em direção a arquiteturas onde o IPv6 passa a ser o protocolo preferencial.
Isso levanta uma discussão interessante:
Será que veremos primeiro os CDNs operando em IPv6-Only ou veremos os ISPs adotando arquiteturas IPv6-Mostly como etapa intermediária?
Minha visão
Na minha opinião, antes de uma Internet totalmente IPv6-Only, veremos alguns movimentos importantes:
- Backbones operando predominantemente em IPv6;
- Clientes utilizando IPv6 como protocolo principal;
- Maior adoção de NAT64, DNS64 e 464XLAT pelos ISPs;
- Expansão do suporte ao CLAT nos sistemas operacionais;
- IPv4 permanecendo apenas como camada de interoperabilidade.
Isso não representa o fim do IPv4.
Representa apenas uma mudança de papel dentro da arquitetura da Internet.
Conclusão
Durante muitos anos, o desafio foi implantar IPv6.
Talvez o próximo grande desafio seja ainda mais interessante:
Operar redes onde o IPv6 seja o protocolo principal e o IPv4 exista apenas para garantir compatibilidade com aplicações legadas.
Não se trata de prever o fim do IPv4, mas de discutir como as arquiteturas poderão evoluir nos próximos anos.
Gostaria de ouvir a opinião da comunidade.
Vocês acreditam que caminharemos diretamente para uma Internet IPv6-Only ou enxergam o IPv6-Mostly como a etapa natural dessa evolução?
Daniel Melo
Engenheiro de Redes – G3 Telecom
Especialista em Backbone IP, BGP, MPLS, IPv6 e Peering.
Este artigo tem como objetivo fomentar a discussão técnica sobre a evolução das arquiteturas IPv6 para ISPs brasileiros.