Geofeed no Registro.br: uma boa prática que todo ISP deveria implementar
Geofeed no Registro.br: uma boa prática que todo ISP deveria implementar
Como melhorar a precisão da geolocalização dos seus endereços IPv4 e IPv6 utilizando Geofeed e os recursos disponíveis no Registro.br.
Introdução
Imagine a seguinte situação:
O cliente mora em Teresina.
O aplicativo do banco entende que ele está em Fortaleza.
O serviço de streaming entrega conteúdo da região errada.
Uma plataforma antifraude interpreta o acesso como suspeito.
O suporte recebe a reclamação.
Na maioria das vezes não existe qualquer problema na rede " camada 1 to 3 ".
O BGP está correto.
O DNS está funcionando.
A latência está adequada.
O problema está na forma como a Internet entende a localização dos endereços IP utilizados pelo assinante.
É justamente nesse cenário que o Geofeed se torna uma ferramenta extremamente importante.
O que é Geofeed?
Geofeed é um padrão definido pela IETF através das RFC 8805 e RFC 9632 que permite ao detentor dos recursos IP publicar oficialmente a localização geográfica de seus prefixos.
Na prática, trata-se de um arquivo CSV hospedado em HTTPS contendo informações sobre onde cada bloco IPv4 ou IPv6 está sendo utilizado.
Esse arquivo pode ser consumido por diversos provedores de dados e plataformas da Internet, tais como:
- MaxMind
- IPInfo
- Cloudflare
- Plataformas antifraude
- Bancos
- Aplicativos de geolocalização
- Sistemas de segurança
O objetivo é reduzir inconsistências e melhorar a precisão das informações de localização utilizadas pelos serviços da Internet.
Como funciona?
O processo é relativamente simples:
- O ISP cria um arquivo Geofeed.
- O arquivo é publicado em HTTPS.
- A URL é associada ao bloco IP no Registro.br.
- Bases de geolocalização consomem essas informações.
- Aplicações passam a identificar corretamente a localização dos usuários.
Por que isso é importante para os provedores?
Muitos ISPs investem continuamente em:
- Backbone próprio
- MPLS
- IX.br
- PNI
- CDNs
- RPKI
- Segurança de roteamento
Porém, acabam negligenciando uma informação extremamente importante: a localização dos recursos IP perante a Internet.
A ausência de um Geofeed bem configurado pode gerar:
- Erros em sistemas antifraude
- Bloqueios indevidos em bancos
- Conteúdo regional incorreto
- Publicidade geográfica errada
- Aumento de chamados no suporte
- Dificuldades em processos de troubleshooting
Em muitos casos, o assinante percebe o problema como uma falha da rede, quando na realidade trata-se apenas de uma geolocalização incorreta.
Exemplo de arquivo Geofeed
Para fins de documentação e treinamento, devem ser utilizados blocos reservados para documentação conforme RFC 5737 e RFC 3849.
Exemplo:
# prefix,country,subdivision,city 192.0.2.0/24,BR,BR-PI,Teresina 198.51.100.0/24,BR,BR-CE,Fortaleza 203.0.113.0/24,BR,BR-MA,Sao Luis 2001:db8:100::/48,BR,BR-PI,Teresina
Após criado, o arquivo pode ser publicado em:
https://geo.seuprovedor.com.br/geofeed.csv
Como configurar no Registro.br
O Registro.br incorporou suporte ao Geofeed dentro da área de recursos de numeração, tornando o processo bastante simples.
O procedimento consiste em:
- Acessar sua conta no Registro.br.
- Entrar na área de Numeração.
- Selecionar o bloco IPv4 ou IPv6 desejado.
- Clicar em "Configurar Geofeed".
- Informar a URL HTTPS onde o arquivo CSV está hospedado.
- Salvar a configuração.
- Aguardar a propagação das informações.
Um erro muito comum: configurar apenas o IPv4
Durante implementações de Geofeed, um erro bastante frequente é publicar apenas os prefixos IPv4 e esquecer completamente os prefixos IPv6.
Embora muitos operadores ainda associem geolocalização principalmente ao IPv4, a realidade é que diversas aplicações modernas operam em Dual Stack e realizam consultas independentes para IPv4 e IPv6.
Isso significa que o mesmo assinante pode apresentar localizações diferentes dependendo do protocolo utilizado.
Exemplo:
IPv4: 198.51.100.25 Localização: Teresina/PI IPv6: 2001:db8:100::25 Localização: Fortaleza/CE
Nesse cenário, uma plataforma pode identificar o usuário em Teresina enquanto outra o identifica em Fortaleza.
As consequências incluem:
- Conteúdo regional inconsistente
- Erros em plataformas antifraude
- Problemas em bancos e aplicativos financeiros
- Publicidade incorreta
- Dificuldades de troubleshooting
Por esse motivo, sempre que um Geofeed for implementado, todos os recursos públicos devem ser contemplados:
- Prefixos IPv4
- Prefixos IPv6
- Blocos de clientes corporativos (quando aplicável)
- Prefixos utilizados em diferentes cidades ou regiões
A regra é simples:
Se um prefixo é anunciado na Internet, ele deve possuir uma localização consistente no Geofeed.
Geofeed não substitui um bom planejamento de endereçamento
Outra observação importante é que o Geofeed não corrige problemas de alocação.
Se um mesmo bloco IP é utilizado simultaneamente em diversas cidades, a precisão da geolocalização será naturalmente reduzida.
Quanto mais organizada for a distribuição dos blocos IPv4 e IPv6 por POP, cidade ou região, melhores serão os resultados obtidos.
Exemplo:
198.51.100.0/24 → Teresina/PI 198.51.101.0/24 → Parnaíba/PI 198.51.102.0/24 → Picos/PI 2001:db8:100::/48 → Teresina/PI 2001:db8:200::/48 → Parnaíba/PI 2001:db8:300::/48 → Picos/PI
Geofeed faz parte do ecossistema de boas práticas
Hoje os operadores já reconhecem a importância de diversas boas práticas operacionais:
| Recurso |
Assim como mantemos IRR, RPKI, PeeringDB e informações de Whois atualizadas, também devemos manter a geolocalização dos recursos consistente e atualizada. Considerações importantesA publicação do Geofeed não garante atualização imediata em todas as plataformas. Cada fornecedor possui seu próprio ciclo de coleta e atualização. Dependendo da plataforma, a propagação pode levar de alguns dias até algumas semanas. Além disso, em determinados casos ainda pode ser necessário solicitar correções diretamente aos provedores das bases de geolocalização. ConclusãoAssim como o RPKI ajuda a proteger os anúncios BGP, o Geofeed ajuda a melhorar a forma como a Internet enxerga sua rede. Não basta apenas anunciar seus prefixos corretamente. Também é importante informar ao ecossistema onde esses recursos estão sendo utilizados. Em um cenário cada vez mais dependente de geolocalização, segurança e experiência do usuário, manter informações consistentes para IPv4 e IPv6 deixou de ser um diferencial e passou a ser uma boa prática operacional para qualquer ISP moderno. A Internet já sabe quem você é. Já sabe quais prefixos você anuncia. Agora ela também pode saber onde eles estão. Referências
AutorDaniel Melo Engenheiro de Redes |
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